Descentralizar polos de inovação em Santa Catarina está no radar

Setor, responsável por 5% do PIB do Estado, precisa ganhar escala, investimentos e sair do circuito Florianópolis, Blumenau e Joinville

Matéria por Anna Carolina Papp – Jornal O Estado de S.Paulo
12 Dezembro 2017 | 05h00

 

Na trincheira desde a década de 80, Santa Catarina vem se fortalecendo cada vez mais como um dos grandes polos de inovação e empreendedorismo do País. São quase 3 mil empresas de tecnologia, que já respondem por 5% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado – e que agora têm o desafio não só de ganhar escala, mas de tornar o ecossistema cada vez mais descentralizado.

Juntas, essas empresas faturam R$ 11,4 bilhões por ano, com cerca de 5,3 mil sócios empreendedores e mais de 47 mil funcionários, segundo dados da Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia (Acate). “Muitos atores ajudaram a desenvolver esse ecossistema: universidades, incubadoras, aceleradoras e fundos de investimento”, diz Daniel Leipnitz, presidente da Acate. “Outro motor importante foi o programa Sinapse da Inovação, do governo do Estado, que oferece de R$ 60 mil a R$ 100 mil a até 100 empreendedores por ano para que possam desenvolver suas ideias.”

Centro de inovação da Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia Foto: José Somensi

Esses incentivos transformaram Santa Catarina no Estado brasileiro com a maior densidade de startups, ou seja, o maior número de empresas em estágio inicial por habitante – uma a cada 40 mil –, segundo levantamento da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) realizado este ano. Em termos absolutos, o Estado ocupa o segundo lugar: concentra 20% das startups brasileiras, atrás apenas de São Paulo, que tem 28,5%.

Outras duas iniciativas recentes que estimularam o segmento foram a criação do projeto Startup SC, do Sebrae Santa Catarina, e o Darwin Starter – aceleradora desenvolvida pelo fundo de investimento Cventures, em parceria com Sebrae/SC, Fiesc, Sapiens Parque, Celta e Fundação Certi.

“O perfil dessas startups é muito variado. Muitas são fortes na área de marketing e vendas, que já veio se consolidando no Estado nas últimas décadas. Mas este ano, foram destaque as fintechs e empresas da área médica”, afirma Alexandre Souza, analista do Sebrae em Santa Catarina.

Uma das principais ações de fomento da instituição é o programa de capacitação, que seleciona 20 startups. Durante cinco meses, os empreendedores participam de uma série de workshops, cursos, palestras e sessões de mentoria, ministrados por especialistas e consultores. “O objetivo final do programa é deixar a startup estruturada, pronta para crescer”, diz Souza. Durante os últimos cinco anos, 140 startups de 23 cidades do Estado participaram do programa.

Outra característica do DNA empreendedor catarinense é que algumas empresas de tecnologia já consolidadas desenvolvem programas para auxiliar e até incubar startups. É o caso da Softplan, uma das maiores empresas de software de Santa Catarina, criada há quase 30 anos.

Como estratégia para ampliar o portfólio de soluções inovadoras para gestão pública, a empresa anunciou no mês passado o investimento em duas startups de Florianópolis: 1Doc e WeGov. O modelo de investimento que a unidade segue é o de Corporate Venture, que mantém os empreendedores no negócio com o apoio da força de vendas, canais, marca e conhecimento de negócio. “Queremos ajudá-los a abrir mercado, dar sustentação nessa fase inicial e interferir o mínimo possível na gestão, para que continuem sendo os donos do negócio”, afirma Moacir Marafon, sócio-fundador e diretor da Unidade de Gestão Pública da Softplan. Ele afirma que a empresa vem estudando mais de 70 startups.

Descentralização. As maiores responsáveis pelo faturamento do setor tecnológico catarinense são as regiões da Grande Florianópolis, com 901 empresas que faturam R$ 4,3 bilhões, e do Vale do Itajaí, com R$ 2,9 bilhões provenientes de 804 empresas. Elas representam, respectivamente, 37% e 25% do faturamento total do Estado em tecnologia.

Ao considerar o faturamento médio, o polo de Florianópolis é o terceiro maior do Brasil, com R$ 4,7 milhões por empresa. A capital catarinense perde apenas para os polos tecnológicos de Campinas (SP) e Rio de Janeiro (RJ).

Alexandre Souza, do Sebrae, aponta que, além de ganhar escala, se projetar no cenário nacional e fomentar mais investimentos, o polo catarinense tem o desafio de se descentralizar – e sair do circuito Florianópolis, Blumenau e Joinville. “A cultura empreendedora tem aos poucos avançado para outras cidades, como Criciúma, Chapecó e Tubarão”, diz Souza.

Em Tubarão, com uma economia voltada especialmente para a fabricação de cerâmica, o setor de tecnologia vem desabrochando aos poucos. A partir da implementação do Comitê de Inovação pela prefeitura local em parceria com empresários da cidade, foi iniciado o fomento do ecossistema de inovação e tecnologia. Uma das empresas referência é a Oestec, que desenvolve soluções digitais para a segurança da informação. “Nunca recebemos nenhum tipo de investimento e hoje crescemos o dobro do mercado de segurança da informação”, diz o presidente da Ostec, Cassio Brodbeck. A empresa já tem presença em todo o território nacional e também no México, Argentina e Colômbia.

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